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sábado, janeiro 31, 2004

Genealogia

Hoje deparei-me com um artigo sobre genealogia na revista do Expresso desta semana.
Também eu já me dediquei à busca documental dos meus antepassados, passei horas em arquivos vendo microfilmes ou desfolhando livros antigos, descobrindo as minhas origens.
O papel envelhecido pelo tempo, quase sempre manchado, às vezes rasgado, a caligrafia variada e nem sempre simples são alguns dos muitos obstáculos para se conseguir extrair a informação que pretendemos. E tantas vezes os livros de registo em determinados locais ou datas se perderam ao longo dos anos. Por vezes os registos que pretendemos parecem saltar aos nossos olhos uns atrás de outros, mas em outras alturas percorremos as páginas sem fim sem conseguir encontrar uma pequena informação importante. E é tão agradável descobrir um nome procurado no meio de um grande livro cheio de nomes!
E os registos orais? Que delicia que é conversar com os mais velhos, fazer-lhes perguntas, registar tudo, ouvir histórias antigas, tentar decifrar quando o que dizem é realidade ou uma traição da sua memória. Tentar datar os acontecimentos, encadear situações, obter informação sobre os locais onde as pessoas nasceram, cresceram, trabalharam, casaram e faleceram.

Lembro-me que sempre me fascinou a ideia de compilar informação sobre a minha família, mas quando miúdo ninguém me deu importância, achavam que era brincadeira de criança. Depois quando comecei a ter idade, condições e conhecimento para começar por minha conta sem a ajuda dos adultos, fui adiando o seu início porque tantas outras coisas pareciam bem mais interessantes.
Até que após a morte da minha avó, a última representante da sua geração, tomei consciência que tinha perdido uma importante fonte de informação e que não podia continuar a adiar. Assim iniciei a minha pesquisa lendo muita coisa, aprendendo, procurando informações e lições com quem sabia. Na altura conseguia dispor de algum tempo livre para dedicar à genealogia e foi com enorme gosto que descobri tanto sobre o passado da minha família. Não só os avós, mas também os tios, os primos, os locais, os rituais ou a vida de cada época.
Hoje ainda tenho muito para descobrir, existem ainda muitas incógnitas para conseguir decifrar, infelizmente o tempo que tive no passado hoje é inexistente. De vez em quando ainda tomo notas de informações que recolho por acaso, numa conversa, num texto que encontro, numa foto de família que é encontrada, quando alguém nasce, casa ou falece.
Até agora não consegui nenhuma ligação a famílias importantes, por isso sou mesmo descendente do povo anónimo, o que me dá ainda mais prazer nesta procura porque tudo tem de ser encontrado naqueles livros cheios de história. Consegui até agora referenciar mais de 1750 pessoas e os registos mais antigos remontam a finais do século XVI.

Hoje ao ler o artigo no Expresso, deu-me as saudades e apeteceu-me voltar aos arquivos! Vamos lá ver se arranjo um tempinho para o fazer!

 

quinta-feira, janeiro 29, 2004

A vida é uma caixinha de surpresas

Quantas vezes já ouvimos dizer que "a vida é uma caixinha de surpresas" ou nós próprios pronunciamos essa mesma expressão? Pois é, muitas vezes! Especialmente quando nos surge uma daquelas surpresa pela frente que nos toca de forma mais intensa.

A vida é feita de surpresas, aliás um encadeado de surpresas, umas boas, outras más, umas grandes, outras pequenas, de diversas formas e tamanhos, de diferentes sabores e intensidades, umas como resultado de opções que nós próprios tomamos, outras são completamente imprevisíveis e incontroláveis.
São acontecimentos que não estão planeados e que não conseguimos prever, são acontecimentos inesperados aos quais temos de saber reagir da melhor forma para que tanto esses acontecimentos como os seus efeitos nos causem o menor dano possível em cada momento. Aliás cada momento da vida é também ele uma pequena surpresa porque não sabemos ao certo o que ele nos reserva até o vivermos. É único e imprevisível.

Nas surpresas menos boas facilmente ficamos desalentados, o nosso sorriso desaparece, tudo à nossa volta nos parece bem mais cinzento, temos alguma sensação de impotência perante os efeitos dessas surpresas, ficamos tristes.
Nessas alturas temos de ser capazes de acreditar que o nosso sorriso não nos abandonou mas apenas hibernou durante um bocadinho. Em breve vai regressar bastando uma pequena surpresa agradável para contrariar o desânimo e a tristeza. É nesses momentos que temos de encontrar forças para reagir e renovar o estado de espírito, que temos de estar atentos às surpresas que vão fazer inverter o ciclo negativo e para isso temos também de estar receptivos a ser surpreendidos de forma positiva.

E quando a surpresa é agradável, então o nosso sorriso desponta, os olhos brilham, o animo regressa e até parece que o mundo à nossa volta é bem mais colorido! Nessas alturas temos de saber retirar das surpresas tudo aquilo que elas nos trazem de bom, temos de desfrutar da alegria, temos de partilhar o nosso sorriso com quem nos rodeia, em especial com as pessoas que nos acompanham na vida e nos tocam de forma especial. Contagiar os outros com o nosso estado de espírito!

A vida vai continuar a ser uma caixinha de surpresas, uma após a outra as surpresas vão fazer com que a monotonia não se instale e vão fazer com que seja divertido e emocionante ir descobrindo o que essa mesma caixinha nos vai reservando ao longo da vida!

 

domingo, janeiro 25, 2004

Vida

Descobri que estava na Necrologia!
No início julguei que tinha morrido e nem tinha dado por isso. Depois vi com mais cuidado e descobri que afinal era só uma referência para um texto meu para quem necessita de alguma motivação. Afinal nem tudo é mau!

Ainda bem! Não me apetece nada morrer, tenho ainda tanto para viver nesta vida, tanta coisa para fazer, tanta coisa para experimentar, tanta coisa para descobrir, tanta coisa para aprender, tantas coisas para ver!

E faço minhas as palavras da Marta na sua página pessoal:

“Vida depois da morte? Não sei, gosto de pensar que sim mas pelo sim pelo não: Muita vida antes da morte”

Como diz o ditado “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”, também neste tema não podemos deixar para viver depois da morte o que podemos viver agora, independentemente do que possa existir depois da morte.

 

sábado, janeiro 24, 2004

Os Comentários

Existe uma nova polémica no mundo dos blogs, descobri-a ao passar pela Pensativa. A nova controvérsia gira em torno da existência ou não de comentários nos blogs, e parece ter começado no Eu vou mas volto, em que o autor deixou expressa a sua posição face aos comentários.

Cada um é livre de fazer as suas escolhas, logo o autor do blog é livre de querer ter comentários ou não. Tal como é livre de revelar a sua verdadeira identidade ou de usar um pseudónimo, de escrever todos os dias ou esporadicamente, de escrever os seus textos ou de citar outros autores. Tal como os leitores são livres de lerem os blogs ou não, de deixarem comentários ou não, de lerem ou ignorarem os comentários já existentes nos blogs, de consultarem ou não os arquivos de datas passadas.

Quem não gosta e os encontra, faça de conta que não existem. E quem gosta e não os encontra, comente de outra forma possível (normalmente por correio electrónico) ou respeite a vontade do autor em não receber comentários.
Vai haver sempre pessoas que defendem que os comentários têm de existir e que sem eles os blogs não fazem sentido, tal como vai existir gente a dizer que eles deturpam a filosofia dos blogs e não fazem sentido. É como a opinião sobre a existência ou não de contadores e de estatísticas nos blogs, há quem ache que são uma forma de vaidade, e há quem não se incomode com a sua existência.

Eu tenho os comentários no blog, quem quiser pode comentar e pode ler o que os outros comentam, gosto de saber o que os outros pensam, gosto desta pequena interactividade e reconheço que me sabe bem saber que o que escrevo não deixa indiferente quem por aqui passa. E gosto de ir comentando as coisas que encontro nos blogs onde passo e que me tocam, seja porque concordo e apetece-me dizê-lo publicamente, seja porque discordo e quero deixar o meu ponto de vista, seja porque simplesmente me apetece agradecer o facto de aquilo estar ali escrito.
E eu vou continuar assim! Cada um é livre de escolher se quer ou não ter comentários, e livre de comentar ou não!

 

domingo, janeiro 18, 2004

O Filtro da Alma

É interessante perceber como às vezes vemos apenas o que queremos ver, e em outras ocasiões até vemos mais do que realmente existe. Por outras palavras, o que vemos é apenas uma imagem da realidade perante nós, é a imagem que conseguimos apreender da realidade e por isso é tantas vezes apenas aquilo que queremos ver.
É como se tivéssemos um filtro que nos vai apresentar aquilo que temos perante nós de acordo com as suas características, filtro esse que é formado pelo nosso estado de espírito, pelas nossas expectativas, sonhos e medos.

Quando estamos animados e de bem com a vida, tudo parece que tem mais vida, mais cor, mais energia. Até um dia chuvoso pode ser bonito e belo. Cada gota de chuva que cai tem um brilho especial, o mar furioso transmite energia e vida e o vento que sopra parece que nos dá força para viver e para avançar em direcção dos nossos sonhos.
Quando estamos tristes e desanimados, tudo parece cinzento e triste, sem energia. Até um dia de sol pode ser enfadonho. O calor parece que nos abafa, a luminosidade do dia parece capaz de nos ofuscar, a alegria dos outros com o dia bonito quase faz troça de nós e relembra-nos que estamos desalentados.

É vulgar dizer que os nossos olhos são o espelho da nossa alma, porque mostram o estado de espírito que temos dentro de nós. É esse estado de espírito presente nos nossos olhos que filtra a informação real, traduzindo a realidade em sensações diferentes em cada momento. Se os outros veem nos nossos olhos o nosso estado de alma, também nós vemos os outros por esses olhos marcados pelo nosso estado de alma. E quando vemos o mundo cheio de cores e energia, significa que também nós estamos cheios de cor e alegria por dentro!

Quando estamos desanimados temos portanto mais probabilidade que tudo nos pareça mais cinzento, menos interessante, mais problemático ou mais complexo e o que vemos não nos vai dar o ânimo que necessitamos para mudar o nosso estado de alma, muito pelo contrário.
Nessas alturas temos de saber atenuar o filtro que a alma produz em nós e que limita a nossa capacidade de inverter o desalento. Se o conseguirmos vamos trazer de volta o ânimo, a confiança, a alegria, a paixão, o entusiasmo, a vontade e tudo aquilo que nos dá mais cor, energia e vida à nossa alma.
E isso consegue-se quando decidimos mudar algo em nós. Essa mudança pode ser tão pequena quanto mudar o corte de cabelo de forma a ficarmos mais satisfeitos com a nossa imagem, o que reforça a nossa auto-confiança. Mas podemos mudar através das mais variadas coisas que fazemos no nosso dia a dia. Podemos mudar de atitude perante a vida, podemos mudar de emprego, mudar de hobbies, mudar a alimentação, pode ser uma nova amizade que fazemos, pode ser uma nova paixão que surge perante nós, talvez uma casa nova, uma função nova no emprego, um novo local onde almoçamos diariamente, um novo livro que lemos, um novo filme que vemos, etc…

Quase tudo pode ser uma oportunidade de mudar, uma oportunidade de regressar aos sorrisos, de voltar a acreditar em nós mesmos. Só temos de estar atentos a essas oportunidades e fazer com que o nosso filtro negativo perca a força que normalmente tem, a tal força que não nos deixa sequer aperceber das oportunidades que estão em frente de nós.
Temos de saber encontrar formas de conseguir ver o mundo em redor de nós com mais cor e energia, temos de conseguir estabelecer em nós um filtro da alma colorido e alegre, temos de encontrar o arco-íris que faz esquecer a tristeza da chuva.

 

segunda-feira, janeiro 12, 2004

Prazos Elásticos

O projecto, o estudo, a fase, a investigação, a etapa, o plano ou o processo, podemos chamar o que se quiser ao caminho que temos de percorrer para atingir um objectivo, para cumprir uma meta. Caminho que se inicia e tem um prazo definido para ser concluído.
Para ser bem sucedido é conveniente que se comece a trabalhar na data prevista e arranque, que todos se envolvam exactamente quando está previsto que o façam, que não se atrasem nas datas de conclusão, que não se percam com outras coisas acessórias pelo meio, que não desistam do trabalho e que trabalhem todos no mesmo sentido: o do sucesso.
Depois há que ter respeito pelo trabalho dos parceiros de trabalho e respeitar os prazos, não alargar indefinidamente os prazos, não esquecer a data final estipulada.

Só que infelizmente os prazos são tantas vezes elásticos e os projectos estendem-se tantas vezes para além do razoável. E quem cumpre vê que o seu empenho de pouco serviu para alcançar o objectivo na data prevista.
E como isto dos prazos elásticos se torna cada vez mais um hábito, acaba por produzir um efeito bola de neve. Quantas pessoas não iniciam o trabalho pensando logo à partida que o prazo vai ser aumentado e que ninguém vai cumprir os prazos?
Quantas pessoas não iniciam o trabalho no dia anterior ao fim do prazo apenas para dizer que apesar do atraso já está a trabalhar, que a culpa é apenas da quantidade de trabalho?

É a confiança que está comprometida, já não se confia que os outros façam as coisas como está previsto, muito menos que o façam dentro dos prazos. E sem essa confiança torna-se difícil atingir os objectivos de forma segura e dentro dos prazos.
Depois de prazo em prazo, todo o trabalho se vai arrastando ao longo do tempo, se calhar alguns só ficam concluídos quando as condições se alteraram e tudo o que estava planeado já não tem consistência nem razão de ser. Tempo desperdiçado.

E é tão fácil cair na tentação do atraso…
Olhando para o mundo profissional tantas vezes isto acontece, às vezes somos nós próprios que erramos e nos esquecemos de pedir desculpa pelo atraso e de avisar com antecedência que estamos atrasados, outras vezes é o nosso trabalho que fica comprometido ou sem efeito porque os outros não cumpriram e não pediram ajuda atempadamente.

E quem nunca desesperou num consultório médico porque a consulta estava atrasada consequência do médico que iniciou o dia de trabalho muito tarde? Depois é todo o nosso plano diário que desliza porque ele começou tarde.
Quem não ficou irritado com o atraso de um comboio, autocarro ou avião?
Quem não ficou irritado com o prazo não cumprido pelo empreiteiro de uma obra?
Quem não se sentiu injustiçado por ter cumprido o prazo e perdido de fazer coisas que gosta, e no fim percebeu que foi tempo gasto em vão porque o resto da equipa de trabalho se atrasou por não querer perder os tais outros prazeres?
Quem nunca pediu num exame mais quinze minutinhos para acabar uma pergunta?

Os prazos elásticos até nem são maus na sua essência, o problema é não serem usados apenas em casos excepcionais e acabarem por ser a regra, por serem usados sem respeito pelos outros e por se esperar que possam ser elásticos indefinidamente.

E é tão frustrante quando abdicamos de algumas coisas que pessoalmente nos poderiam dar imenso prazer para nos dedicarmos a um projecto e depois ele não atinge os objectivos delineados porque outros não se dedicaram da forma esperada e ficam à espera da elasticidade dos prazos e da nossa paciência.

 

sábado, janeiro 10, 2004

A Tecnologia

Não existem grandes dúvidas que o Big Brother começa a tomar conta de nós. Não falo do programa de televisão, falo do conceito de que estamos em permanente vigilância.

O telemóvel acaba por nos deixar em contacto permanente, tecnicamente pode mesmo localizar-nos, o telemóvel desligado ou não atendido evidenciam que estamos ocupados, as nossas chamadas telefónicas ficam registadas, a via verde das auto-estradas vai registando o nosso movimento, o nosso uso de cartões bancários deixa o nosso rasto por todo o lado, as mensagens de correio electrónico evidencia o que fazemos a cada hora, as nossas visitas na internet vão registando a nossa passagem pelos sites, os múltiplos endereços de correio electrónico que colocamos nas nossas mensagens enviadas revelam as nossas relações profissionais ou pessoais, até mesmo os blogs registam a nossa actividade, os nossos estados de espírito e revelam nos comentários as ideias que temos ou que têm de nós, as câmeras de controlo de tráfego ou de segurança nas lojas gravam os nossos movimentos, os controlos de acesso registam os nossos movimentos nas empresas e os nossos horários de entrada e saída ficam registados.
E estes são apenas pequenos exemplos!

A tecnologia deveria libertar-nos, pelo menos era o que esperávamos dela.
No entanto se pensarmos que hoje estamos debaixo de olho em tanta coisa que fazemos e que podemos ser analisados nos nossos movimentos e opiniões sem sabermos, então pode ser que a tecnologia seja também uma forma de nos expormos.

Mas não vale a pena ficarmos assustados. Basta que tenhamos presentes que em quase tudo vamos deixar a nossa marca e o nosso rastro, que podemos ser objecto de análise cuidada e que podemos até ser perseguidos digitalmente. Em contrapartida a tecnologia dá-nos acesso a tanta coisa que antes nem sonhávamos, o que está longe pode parecer bem mais perto, podemos comunicar de forma mais rápida, podemos conhecer mais mundos, podemos simplificar tantos actos na nossa vida!

Eu não troco todas as possibilidades que a tecnologia me pode dar só porque existem perigos, só tenho de os conhecer e estar atento! Tal como em tanta coisa na nossa vida, existem sempre perigos se não usarmos as coisas da forma correcta.

 

terça-feira, janeiro 06, 2004

Gota a Gota

Todos temos em mente que por vezes a nossa paciência tem limites, por isso é vulgar associar a esse facto a ideia que uma simples gota pode fazer o copo transbordar. É o limite, a altura em que a mais pequena gota vai ultrapassar o limite que o copo consegue aguentar sem transbordar. Gota a gota o copo vai enchendo e é essa última gota que vai provocar alguns estragos em torno do copo.
Quando na nossa vida as coisas menos boas se acumulam, quando as desilusões se vão somando o nosso copo de paciência vai enchendo e vamos aguentando. Até que um dia com uma pequena gota que surge, a paciência esgota-se e o copo transborda.

Se a água que está no copo se mantiver fria então ela repousa em calma, e cada nova gota além do limite faz então transbordar o copo, mas até esse efeito acontece com alguma tranquilidade. Só no caso de a gota ser um jorro contínuo de nova água é que se provoca uma inundação intensa em torno do copo, caso contrário a água escorre lentamente pelo copo, reduzindo o estrago em torno deste.
E como qualquer gota que nos faz esgotar a paciência, ela é uma gota de água que vem quente quase que queimando, mas ao entrar em contacto com o copo tranquilamente frio vai perder a sua força, e a água que sai do copo perde a sua temperatura que tanta força lhe dá.
No entanto se a água do copo está também ela quente, se tiver entrado em ebulição, ela vai estar a borbulhar. Nesse caso a água vai salpicar a ferver tudo o que rodeia o copo, até mesmo antes da que a tal última gota atinja o copo. E cada gota que chega vai ser incorporada pela água quente e a ferver do copo que pela sua dinâmica não vai acalmar tão cedo.

Voltando à associação entre a nossa paciência e a imagem da gota que faz transbordar o copo, podemos facilmente compreender que se mantivermos a nossa cabeça minimamente fria, tranquila, vai ser mais simples acomodar cada gota que faz transbordar a nossa paciência por muito quente que ela venha. Podemos tentar minimizar os estragos se mantivermos a cabeça fria, se evitarmos reagir a quente e se esperarmos pelo arrefecimento para reagir e incorporar as tais gotas que mexem connosco. Assim apenas vai transbordar uma quantidade mínima de água.
Isso não é contudo simples, cada gota que surge ameaçando cair sobre a nossa cabeça provoca em nós um impulso de reacção enorme. Temos de fazer um esforço para não entrar em ebulição porque não vai adiantar de nada. Às vezes a ameaça é apenas isso: uma ameaça; e a gota nunca chega a cair. E mesmo que venha a cair é bem melhor que a nossa cabeça esteja fria e tranquila, talvez mesmo preparada para tomar controlo sobre a situação minimizando os estragos à nossa volta, e em especial aqueles que nos podem vir a afectar a nós.
E gota a gota, vamos aprendendo também a lidar melhor com elas, aprendendo a não reagir a quente, aprendendo a não lhe dar demasiada importância, aprendendo a esperar para que a água esteja tranquila e a uma temperatura agradável para a fazer sair do copo sem que nos queime, sem que nos magoe.
Mesmo assim vão existir sempre novas gotas que nos escapam à preparação e ao controlo, só temos é de ir tentando que cada vez seja menor o número dessas gotas que nos queimam e que provocam grandes perturbações em torno do copo. Em torno de nós!

 

domingo, janeiro 04, 2004

Decisões

Hoje aterrei nas Silhuetas que colocavam 3 perguntas:

Como se tomam decisões capazes de mudar uma vida?
Que passos devem ser percorridos até termos confiança na decisão a adoptar?
Quantas balanças é preciso usar para medir bem os prós e os contras?
posted by luis sousa at 10:54

Qualquer decisão acaba por mudar a vida porque é uma escolha entre pelo menos dois caminhos. Se a escolha fosse diferente o encadeado de momentos da nossa vida seria forçosamente distinta. Podemos por exemplo escolher entre ficar quietos ou agir, e isso significa dar uma orientação diferente à nossa vida.

Mas a ideia da pergunta colocada deve ter mais a ver com o sermos capazes de fazer escolhas sucessivas para que a nossa vida tome determinado rumo. Isso obriga antes de mais à decisão de querer tomar um determinado rumo. Como se toma essa decisão?
Não existem regras universais, nem para nós nem para os outros. Podemos tomar essa decisão na passagem de ano só porque achamos que temos de ter uma vida nova ou então depois de uma enorme desilusão porque concluímos que não queremos repetir a experiência. Podemos decidir mudar de rumo depois de uma enorme reflexão em que achamos que o rumo que estávamos a seguir nos vai dar conduzir a sensações que não queremos viver. Podemos mesmo decidir por medo, por medo de seguir um rumo que temos vindo a seguir, por medo de perder tudo o que já conquistamos, por medo de magoar os outros, por medo não sermos capazes de decidir de outra forma ou por medo que a nossa decisão acabe por nos deixar mais vulneráveis.

E quais os passos que devemos percorrer para tomar a tal decisão ainda é mais complicado de definir. Tantas vezes decidimos no momento sem pensar duas vezes e outras vezes levamos tanto tempo a decidir que quando tomamos a decisão já é tarde demais.
No fundo estamos a falar de um passo único, o de decidir, tudo o resto foi o que nos levou a decidir ou foram várias decisões sucessivas dos momentos anteriores.

E as balanças que usamos são a nossa imaginação e os nossos medos, são aquilo que podemos supor e aquilo com que conseguimos sonhar, são os medos que nos trazem pesadelos e os medos que temos de perder alguma coisa importante.
Às vezes decidimos só com um prato da balança, decidimos por reacção sem sequer pesar os prós e os contras!

A cada momento vamos decidir o rumo e em cada um desses momentos vamos ajustando o nosso rumo, às vezes fazemos mesmo variações bruscas e outras vezes seguramos apenas o leme de forma firme e segura. A nossa vida pode assim levar um rumo certo, pode variar de rumo ao sabor da ondulação, pode ser um eterno vai e vem, podemos andar aos círculos, podemos nem sair do sítio... depende das decisões que vamos tomando.

 

sexta-feira, janeiro 02, 2004

Tentações

“As tentações são como um ataque de espirros: estes também começam do nada, com uma débil irritação na base do nariz que depois cresce avassaladora, tornando-se impossível de controlar. Na maioria das vezes, as tentações iniciam-se como uma patrulha ligeira, uma secção que examina o terreno, pequenas ondulações de uma sensação vaga e indefinida; e ainda mesmo antes de sabermos o que ela pretende de nós, começamos a sentir uma progressiva incandescência interior, como quando ligamos um aquecedor eléctrico; enquanto a resistência ainda está cinzenta, começa a produzir uma série de pequenos estoiros, depois fica levemente rosada, a seguir avermelhada e, à medida que vai ficando em brasa e furiosa, enchemo-nos de uma leviandade estouvada. O que se passa? O que e que interessa? Mas por que não? Que mal é que isso tem? É como se dentro de nós uma vozinha vaga mas selvagem, sem quaisquer inibições, nos suplicasse e persuadisse: «Ora, ora, mas que importância tem? Que mal é que há?»"

Amos Oz in "Uma Pantera na Cave"

Quantas vezes na vida somos tentados a cometer loucuras, a fazer exactamente o contrário do que a razão nos recomenda? Dizemos que a tentação é mais forte que nós, do que a nossa razão. Arranjamos desculpas para a opção feita na natureza humana.

Ano novo, vida nova. Esta é a altura do ano em que mais gente decide que vai ser racional daqui para frente, que vai lutar bravamente contra as tentações e que vai conseguir manter o rumo ditado pela razão. Daqui a uns dias, as tentações vão voltar a marcar presença de forma progressiva. Aos pouco vão tornar as decisões tomadas às doze badaladas da passagem do ano cada vez mais fracas e vulneráveis.

As decisões só são realmente válidas quando as tais regras que estipulamos para nós forem efectivamente aquilo que queremos racional e emocionalmente. Enquanto forem apenas uma forma para que o racional possa vença o emocional, então são decisões mais sujeitas a serem esquecidas rapidamente.
Quantos dos que decidem deixar de fumar, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem cumprir horários, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem amar mais e melhor, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem estudar ou trabalhar mais, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem largar um vício, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem ler um livro por semana, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem conduzir com cautela, o vão fazer realmente fazer este ano?

Mas que seria da nossa vida sem tentações? Talvez uma grande monotonia!

Uma coisa é certa, apesar de todas as decisões que sejam tomadas neste início de ano, vamos continuar a viver como até aqui com muitas tentações à nossa volta. A umas vamos ceder, a outras não. Temos de confiar na nossa capacidade de escolher em cada momento o melhor para nós! Vamos continuar a decidir em cada momento ao longo do ano, podendo mudar a decisão anterior se acharmos que isso nos é mais confortável.
Decidir assim é a liberdade que temos, mas este poder de decisão também pode ser um grande dilema, porque com este direito de decidir recebemos também a responsabilidade por aquilo que decidimos.

Um bom ano... e boas escolhas!

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