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sexta-feira, janeiro 02, 2004

Tentações

“As tentações são como um ataque de espirros: estes também começam do nada, com uma débil irritação na base do nariz que depois cresce avassaladora, tornando-se impossível de controlar. Na maioria das vezes, as tentações iniciam-se como uma patrulha ligeira, uma secção que examina o terreno, pequenas ondulações de uma sensação vaga e indefinida; e ainda mesmo antes de sabermos o que ela pretende de nós, começamos a sentir uma progressiva incandescência interior, como quando ligamos um aquecedor eléctrico; enquanto a resistência ainda está cinzenta, começa a produzir uma série de pequenos estoiros, depois fica levemente rosada, a seguir avermelhada e, à medida que vai ficando em brasa e furiosa, enchemo-nos de uma leviandade estouvada. O que se passa? O que e que interessa? Mas por que não? Que mal é que isso tem? É como se dentro de nós uma vozinha vaga mas selvagem, sem quaisquer inibições, nos suplicasse e persuadisse: «Ora, ora, mas que importância tem? Que mal é que há?»"

Amos Oz in "Uma Pantera na Cave"

Quantas vezes na vida somos tentados a cometer loucuras, a fazer exactamente o contrário do que a razão nos recomenda? Dizemos que a tentação é mais forte que nós, do que a nossa razão. Arranjamos desculpas para a opção feita na natureza humana.

Ano novo, vida nova. Esta é a altura do ano em que mais gente decide que vai ser racional daqui para frente, que vai lutar bravamente contra as tentações e que vai conseguir manter o rumo ditado pela razão. Daqui a uns dias, as tentações vão voltar a marcar presença de forma progressiva. Aos pouco vão tornar as decisões tomadas às doze badaladas da passagem do ano cada vez mais fracas e vulneráveis.

As decisões só são realmente válidas quando as tais regras que estipulamos para nós forem efectivamente aquilo que queremos racional e emocionalmente. Enquanto forem apenas uma forma para que o racional possa vença o emocional, então são decisões mais sujeitas a serem esquecidas rapidamente.
Quantos dos que decidem deixar de fumar, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem cumprir horários, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem amar mais e melhor, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem estudar ou trabalhar mais, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem largar um vício, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem ler um livro por semana, o vão fazer realmente fazer este ano?
Quantos dos que decidem conduzir com cautela, o vão fazer realmente fazer este ano?

Mas que seria da nossa vida sem tentações? Talvez uma grande monotonia!

Uma coisa é certa, apesar de todas as decisões que sejam tomadas neste início de ano, vamos continuar a viver como até aqui com muitas tentações à nossa volta. A umas vamos ceder, a outras não. Temos de confiar na nossa capacidade de escolher em cada momento o melhor para nós! Vamos continuar a decidir em cada momento ao longo do ano, podendo mudar a decisão anterior se acharmos que isso nos é mais confortável.
Decidir assim é a liberdade que temos, mas este poder de decisão também pode ser um grande dilema, porque com este direito de decidir recebemos também a responsabilidade por aquilo que decidimos.

Um bom ano... e boas escolhas!

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