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terça-feira, fevereiro 03, 2004

Pontes

São necessárias pontes para unir as margens dos rios. As pontes interligam a vida que existe de cada lado, de modo a que o rio que separa as margens seja assimilado e passe a fazer parte da vivência das duas margens em conjunto. As pontes existem para que a vida possa fluir de um lado para o outro e para que cada uma das margens possa enriquecer com a sabedoria e experiência que vem do outro lado do rio.

Também na vida são lançadas pontes para unir as pessoas, para que aquilo que as separa passe também a ser parte da vida delas, sem que seja um obstáculo e passe a existir uma travessia por onde as duas vidas se possam unir de alguma forma.
Ao longo da vida vamos construímos pontes que nos ligam às pessoas que nos rodeiam e com as quais estabelecemos algum tipo de relação. Através dessas pontes também nós aprendemos imenso com as outras pessoas, não deixamos de ser nós próprios mas podemos incorporar experiências e saberes até aí ignorados.

As pontes sobre os rios têm de ser cuidadas, temos de estar atentos a elas, à sua conservação e ao seu estado, de modo a que o seu uso continue a ser seguro para unir as margens, de modo a que a vida passe por elas sem medo e sem o risco de estragar a tal vida que vai fluindo entre as margens.
Se uma ponte começa a entrar em queda, é preciso tratar dela, é preciso investir nas tarefas de recuperar, manter, solidificar e consolidar a ponte.
Se está desgastada de forma irreversível então é conveniente erigir uma nova passagem, uma nova travessia entre as margens agora mais afastadas pela insegurança e desconfiança da velha ponte. Decerto que a nova ponte não será nunca uma cópia da velha, vai ser uma travessia diferente, adaptada à vida que cada margem tem actualmente, de acordo com as novas condições de cada lado do rio, de acordo com as exigências actuais das margens sem esquecer os erros cometidos na ponte que é abandonada agora nem o que de bom existia nela. A velha ponte fica na memória, às vezes até lhe adaptamos o uso para que não se perca totalmente. Algumas pontes deixam de ser rodoviárias e passam a ser apenas pedonais.

Também na vida é assim, temos de tratar as pontes que nos unem aos outros, temos de estar atentos ao seu estado e à sua condição. Se a ruína ameaçar essas pontes temos de saber reagir e recuperar a travessia, recuperando ou construindo uma nova ponte. Assim vamos criamos novas pontes quando refundamos as relações partindo daquilo que somos hoje e não apenas copiando o que fomos ou que gostaríamos que fossemos.

Há paixões que se tornam amores. Amizades que se reforçam. Amores que se tornam amizades. Amizades que se transformam em paixões, Paixões se tornam belas recordações. Empatias que se revelam amizades. Amores que se renovam. Paixões que crescem. Amizades que se tornam companheirismo. Paixões que se desfazem e cristalizam em amizades. Amizades que cresce para um paixão. Cumplicidades que se transformam em paixões. Etc...

Mas há também pontes que com o passar do tempo deixam de fazer sentido continuar a existir. Quando já não existe vida para fluir entre as margens a ponte deixa de ter razão de continuar ali. A ponte pode simplesmente deixar de existir, fica apenas a recordação da ponte que existiu ali um dia.

Nas pontes da vida acontece o mesmo. Quantas amizades não se esgotam ao longo da vida? E quantas paixões não se extinguem sem resultar em nada mais?

As pontes são fundamentais para o fluir da vida. Isso acontece tanto nas pontes que unem as margens dos rios como nas que ligam pessoas através de uma relação.
Essa importância está muito bem expressa numa frase aparentemente anónima que circula pelos nossos emails de vez em quando: "Se você se sente só, é porque construiu muros e não pontes"
Na vida temos mesmo de saber construir e manter as pontes que nos ligam aos outros, temos de procurar perceber em cada momento o que essas pontes significam e temos de encontrar as adaptações, alterações ou melhorias que devemos fazer para que continuem a ser uma forma de nos enriquecermos nas relações que estabelecemos com os que nos rodeiam. Para aquelas que entretanto vão desaparecendo e transformando, temos de saber preservar a sua memória com base naquilo que nos tornamos fruto do que aprendemos com essas pontes.

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