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domingo, março 07, 2004

Sobre o Ciúme

A Comadre escreveu sobre os ciúmes, sendo que a dúvida que existia era saber se pode existir paixão sem ciúmes. Há quem diga que é essencial existirem ciúmes para que se possa falar de amor, mas a Comadre não concordava porque não tinha ciúmes do marido e ao mesmo tempo se sentia cada vez mais apaixonada por ele.

A minha primeira reacção é notar que primeiro se fala em amor e depois em paixão!
Na paixão podemos nem sequer notar aquilo que no amor nos torna ciumentos, na paixão estamos demasiado ocupados para dar importância aos pequenos detalhes menos bons, queremos é viver intensamente.
Mas no amor, tudo é distinto, todos os pormenores são importantes, já não estamos a viver o encantamento da paixão, mas estamos a viver a serenidade que uma relação assim nos propicia.
É uma leitura presa pelo pormenor das palavras amor e paixão.

Na verdade cada pessoa é distinta ao longo do tempo, e o que hoje nos parece inofensivo amanhã poderá ser uma ameaça, por exemplo quanto maior for a nossa auto-confiança menos provável será sentirmos ciúmes obsessivos. Nem todos somos iguais e o que admitimos como prova de amor ou prova de desconfiança por vezes varia com o grau de encantamento que estamos a viver nesse momento. O que para um é inofensivo para outro pode ser excessivo e o que para um é uma situação normal para outro pode ser uma invasão do seu espaço. Afinal de contas o que cada uma das pessoas espera da sua relação nem sempre é exactamente coincidente e vai evoluindo ao longo do tempo ao seu ritmo no seu sentido próprio.

O próprio ciúme pode ser inofensivo e bom para a relação se vier em forma de carinho, atenção e cuidado mas se vier na forma de obsessão e desconfiança pode minar a relação por completo. Os limites são indefinidos, ténues e mudam consoantes os dois intervenientes na relação.

Saber que o outro sente uma pontinha de ciúme pode até ser uma prova de carinho que precisamos, mas o ciúme pode tornar-se um tormento quando nos sentimos vigiados, controlados e sob suspeita permanente. No primeiro caso essa pontinha de ciúme não é nunca vista como ciúme propriamente dito, mas como um carinho e atenção, enquanto no segundo caso nos vai provocar uma desilusão com a pessoa que não confia em nós, e a desconfiança pode tornar-se mútua e destruidora da relação.
O grande problema do ciúme é que se tiver oportunidade, ou seja se o deixamos crescer, então vai ganhar força rapidamente até ficar descontrolado, transformando-se rapidamente de carinho em desconfiança.

Mas então porque é que alguns acham que o ciúme é importante para a relação e outros não?
Talvez a confusão entre o que é indiferença e o que é não sentir ciúmes, muita gente associa o não sentir ciúmes com indiferença ou desinteresse e por isso acha que o ciúme é imprescindível à relação.

A indiferença é a falta de sentimentos, de carinho, de amor, de paixão, de interesse.
Não ter ciúmes é ter sentimentos e carinho, é querer, é ter confiança que a pessoa nos quer bem, é acreditar que somos importantes para essa pessoa.
Ter ciúmes é quando as situações que nos causam alguma dúvida nos fazem reagir, é nessa altura que temos de saber reagir pela positiva não deixando que essa pontinha de ciúme se torne num ciúme obsessivo, temos de transformar essa pontinha de ciúme numa prova de carinho.

Entre a indiferença e o ciúme obsessivo existe uma grande escala de sentimentos que nos passam pela alma e nos condicionam as nossas acções, no centro dessa escala está a tal pontinha de ciúme inofensiva e afrodisíaca que temos de procurar para manter as relações saudáveis.
Ciúmes em excesso são obrigatoriamente negativos para a relação e o desinteresse também, de resto tudo depende do grau com que os ciúmes ou a falta de deles são sentidos pelas intervenientes na relação.

E apesar de tudo isto, tantas vezes os ciúmes crescem dentro de nós, com razão ou sem ela, e nos magoam e beliscam as relações por serem acima daquele limite do inofensivo.
Conseguir que o que sentimos não ultrapasse a tal pontinha de ciúme inofensiva e ao mesmo tempo não se torne indiferença, não é algo simples… mas quem disse que viver era simples?

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