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quinta-feira, setembro 23, 2004

Sobre a Imagem

A propósito de um recente encontro de autores de blogs, é possível ler em (o vento lá fora)* o seguinte:

“Já o Orca chamou a minha atenção para o que considera um dado novo: a exposição através de fotos «a rodos quase sem registo de protestos». Não sendo uma novidade absoluta (há vários bloggers nada anónimos bem pelo contrário), é ainda assim um facto a ter em conta. A ideia de que o anonimato é um pilar dos blogues é que é deformada: é um direito (privacidade e liberdade de expressão não lhe são alheios) e não um dever ou uma característica transversal.”

A primeira ideia que me passou pela cabeça quando vi esta discussão foi: “quem anda à chuva molha-se”, no entanto não deixo de compreender a indignação de quem tem a sua imagem exposta.

O facto de as pessoas irem a um encontro deste tipo significa que vão dar a conhecer de algum modo a sua cara e a sua identidade, ou seja, começa logo aí a perder força a ideia do anonimato, pois quem o quer manter não vai a um encontro desses ou então utiliza um subterfúgio qualquer (ir como acompanhante de outra pessoa, criar um blog não anónimo, ser contratado para servir à mesa, etc...). Todos sabemos que neste tipo de encontros é normal existir captação de imagens, por isso quem se inscreve sabe o risco que corre já que as imagens vão circular pelo menos entre os participantes do evento. E não é difícil estender esta divulgação aos familiares, amigos ou conhecidos desses participantes.

O risco é enorme quando as imagens ficam acessíveis num espaço público como um blog é, até porque é uma forma fácil de serem partilhadas com as pessoas que estiveram no encontro. Eliminar este risco na Internet é impossível, já todos ouvimos falar de circulação indevida de fotos privadas e agora é também notícia a publicação das famosas gravações sobre a Casa Pia. Aliás, esta questão não é muito distinta de outras que rodeiam os blogs, como sejam os direitos de autor sobre textos e imagens usados sem autorização ou então sobre o seu conteúdo no que respeita à veracidade e pela forma como é usado muitas vezes para atacar outras pessoas. A única forma possível para diminuir o risco é falar sobre as coisas antes de acontecerem e tentar promover o bom senso entre todos os envolvidos.

Eu prefiro ter algum controlo sobre a minha privacidade e por esse motivo não assino com o meu nome real. Não é uma questão de me envergonhar do que aqui vos conto, é apenas a forma que escolho para escrever neste blog. Podem criticar-me por isso mas não se esqueçam que Fernando Pessoa tinha vários heterónimos e é apenas um exemplo entre vários. Isto não significa que permaneça secreto, prefiro é poder escolher as pessoas e os momentos em que me dou a conhecer enquanto pessoa atrás deste nome que uso, mesmo sabendo que nessas alturas estou a aumentar o risco de perder a minha privacidade.

Eu fui a dois encontros deste tipo, sabendo o risco que corria. No primeiro deles o assunto foi abordado durante o encontro em forma de pedido (não de imposição) para que as imagens não fossem publicadas. O segundo foi realizado essencialmente com as pessoas que estiveram no primeiro encontro, daí que ninguém sentiu necessidade de “negociar” esta questão da utilização da imagem. Pode ter sido sorte minha, mas em ambos os casos não me lembro de terem havido problemas deste tipo.

Não posso deixar de criticar quem publicou as imagens por não ter verificado primeiro se as pessoas estavam de acordo, até porque a ideia que passaram deste encontro é que se tratava de uma “irmandade”, mas também não deixo de perceber as suas razões para o fazer, afinal era um local público, as máquinas fotográficas não estavam escondidas e não houve nenhum compromisso que as imagens não seriam divulgadas.
Acho que podia ter havido mais algum cuidado na forma como as coisas aconteceram.

Esta discussão faz-me lembrar que há algum tempo atrás vi num blog que já encerrou uma fotografia de um casal na praia. A fotografia era muito interessante e o momento bem captado, no entanto lembro-me de ter pensado na altura se as pessoas que foram fotografadas tinham dado autorização para o serem e especialmente para ficarem expostas publicamente. Poderia existir hipoteticamente alguma razão que ambos tivessem para querer manter a sua relação secreta. No entanto o local não era reservado, por isso é difícil perceber onde está a linha que separa o privado do público.

Em quantas fotografias ou imagens já aparecemos em blogs, revistas, jornais ou televisão sem que a nossa autorização tenha sido dada? Muitas vezes nem sequer sabemos que aparecemos.
Eu tento não publicar imagens que possam suscitar estes problemas, mas mesmo assim não estou livre de cometer uma distracção, porque até uma imagem inocente de uma paisagem urbana com uma viatura estacionada onde supostamente não deveria estar àquela hora e naquele local pode ser entendida como uma violação da privacidade.

O bom senso é a única forma possível de abordar este assunto, na tentativa que um encontro que tanta gente elogiou não fique ensombrado por uma questão que deixou algumas pessoas desconfortáveis.

Afinal, quem anda à chuva molha-se... mas se ficar abrigado também se arrisca a ficar à seca!

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