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terça-feira, novembro 30, 2004

Recordações

Revisitar lugares por onde já passamos faz com que a memória do tempo passado nos faça recordar o que vivemos. Os espaços percorridos no passado com as diferenças próprias do passar do tempo fazem-nos relembrar os passos já percorridos. Nada é igual ao que já foi, mas o recordar do que ali aconteceu obriga-nos a rever o caminho percorrido entretanto. Acontece quando revemos uma antiga casa, uma escola onde estudamos, um jardim onde nos apaixonamos, uma cidade onde passamos férias, um hospital onde fomos operados, um velho carro que conduzimos, um café onde nos reuníamos com os amigos, uma empresa onde trabalhamos ou qualquer outro lugar por onde a nossa vida passou.

Algo de semelhante acontece quando revemos pessoas que fizeram parte do nosso percurso e que nos fazem recordar o que aprendemos com elas ou o que entretanto aconteceu nos percursos de vida de ambos. Assim acontece quando revemos um amigo de infância, um antigo professor, um daqueles desconhecidos que partilhavam diariamente o autocarro connosco, um antigo chefe, uma paixão antiga e todas aquelas pessoas que ao longo da nossa vida nos deixaram uma marca de vida por mais pequena que esta tenha sido.

Além dos locais e das pessoas, existem ainda outras lembranças que nos podem fazer acordar a memória do nosso passado. Os enfeites de Natal lembram outras épocas natalícias vividas, uma música que escutamos no rádio pode fazer recordar outros momentos marcantes da nossa vida, uma fotografia perdida no fundo da gaveta, um livro perdido na estante que salta à vista ou qualquer coisa que nos toque de alguma forma nas nossas recordações.

Recordar é rever o que aconteceu com uma distância que nos permite olhar o que aconteceu de forma bem mais serena e calma, nem sempre mais imparcial, nem sempre menos emotiva, mas sempre de uma forma menos urgente do que no momento em que vivemos aquilo que agora relembramos.

O momento presente é sempre muito mais urgente do que aquilo que vai aparentar ser quando no futuro o olharmos na perspectiva de momento passado. Dizem que recordar é viver, mas mais do que isso acho que recordar é conseguir aprender calmamente com o que foi vivido intensamente no passado.

 

sábado, novembro 27, 2004

A Viagem

A viagem era apenas mais uma de tantas já efectuadas, o caminho seria o mesmo de sempre e o destino estava a cerca de 3 horas. Ao longo dos últimos anos fui registando na memória um percurso que se tornou habitual e me serve tantas vezes de companhia nas minhas conversas comigo mesmo.

Pouco depois da viagem ter começado consegui perceber pelo retrovisor que o pôr-do-sol estava quase acontecer. O céu tornava-se avermelhado ao fundo e o estuário do Tejo lá estava também, capricho de uma auto-estrada que colocava no espelho o rio e o pôr-do-sol. Nesse momento a minha mente relembrou outros momentos assim junto ao mar quando o Sol se vai escondendo na linha do horizonte pintando o céu de cores quentes.

Mais à frente a noite caiu relembrando que o Inverno está quase a chegar e que estas viagens de regresso são agora feitas no escuro. De repente ali à minha frente uma luminosidade no céu escuro tomou-me de surpresa: a Lua Cheia iluminava a noite enquanto que com as finas nuvens acabadas de chegar faziam dispersar o luar. A Lua Cheia toca-nos sempre pela sua força e intensidade, desta vez não foi excepção.

A chegada ao Porto foi já em plena noite fria, mas voltar a esta minha cidade é sempre um momento especial. O Porto é uma cidade muito especial e que tem um encanto único, mas eu sou suspeito a falar dela porque aqui nasci e cresci. Sou um eterno apaixonado pelo Porto de tal forma que até os seus defeitos me cativam.

Esta viagem deixou-me este pôr-do-sol e este luar registados na minha memória apesar do cansaço, do trânsito intenso, do escuro da noite, das obras na auto-estrada e dos muitos quilómetros percorridos.

São momentos como estes que nos lembram que a natureza nos pode transmitir a energia que tantas vezes nos falta para o nosso dia-a-dia.


 

domingo, novembro 21, 2004

Bombardeamentos da Vida

Num mundo cada vez mais competitivo em que os apelos nos surgem constantemente, há momentos em que precisamos de nos refugiar de tudo e todos. Momentos em que tentamos controlar o nosso tempo e até mesmo os nossos sentimentos. Gostamos de nos fechar na nossa concha, de mergulhar a cabeça na areia e com uma boa dose de egoísmo deixar que o tempo nos faça serenar um pouco antes de voltar à luta intensa do nosso dia-a-dia.

Escondidos e refugiados no nosso abrigo não desistimos da luta, apenas estamos a recuperar forças para continuar o nosso caminho. Não é um egoísmo que nos leva a parar mas sim uma defesa natural contra o mundo que por vezes nos parece querer abafar.
É uma tentativa de encontrar o antídoto contra os bombardeamentos que nos tentam consumir vindos do mundo que nos rodeia.

 

domingo, novembro 14, 2004

Amor ou Ódio do Telefone Móvel

Ferramenta de comunicação pessoal dos tempo moderno, o telemóvel tem tanto de positivo como de negativo. O contacto imediato em qualquer lugar permite encurtar distâncias, fazer avisos ou obter resposta às questões mais urgentes. No entanto, este imediatismo pode levar a abusos ou a condicionar as pessoas por causa deles.

Esta semana José Pacheco Pereira escreveu no Público sobre a forma como este pequeno aparelho pode ser considerado uma intrusão à vida das pessoas:

“A namorada - Onde estás?
O namorado da namorada - Estou aqui.
- Aqui aonde?
- Aqui... estou a estudar em casa.
- A estas horas, em casa? Mas que barulho é esse?
- A televisão.
- Parece o mar, estás-me a mentir. Põe lá a televisão mais alto, para eu saber se estás em casa e não na praia. (...)”

Desculpas existem para todos os gostos. Quem nunca ouviu falar em que se perdeu o telefone no café ou táxi, que bateria ficou descarregada, que existia má rede, que alguém se esqueceu do aparelho em casa, que o telemóvel estava silêncio fruto de uma reunião anterior ou que estava a conduzir?
Muitas vezes são a mais pura verdade mas há alturas que esta é uma forma de defensa da privacidade ou do tempo próprio. Por isso o telefone móvel se tornou hoje um grande desafio à confiança e desconfiança da vida social das pessoas.

Depois há quem não tenha bom senso e ligue para os outros sem olhar a horários ou momentos. Chamadas de trabalho durante as férias ou fins de semana, ligar durante horário de refeição, ligar a meio da noite ou muito cedo pela manhã e tantas outras formas de intrusão na vida privada das pessoas. Aqui temos outro desafio que é o da educação e respeito pelo tempo alheio.

A privacidade das pessoas deixa de estar a salvo e obriga a que a nossa forma de viver seja adaptada à tecnologia que temos nos nossos bolsos. Pacheco Pereira termina o texto citado desta forma:

“Já não é o Big Brother a olhar para nós, somos todos a olhar para todos. É a "aldeia global", mesquinha, pegajosa, que sabe tudo e espia tudo, toda contente com os aparelhos mágicos que tudo transmitem e tudo recebem.”

Quando estamos em casa ou no emprego podemos decidir não atender uma chamada no telefone fixo afinal quem está do outro lado não sabe se estamos lá ou não para a atender, mas um telefone móvel é suposto estar connosco sempre. E uma chamada não atendida desperta desconfianças ou coloca a etiqueta de “má educação” a quem não responde à chamada. Por isso há que insistir até a pessoa atender ou então mais tarde cobrar que a chamada não foi atendida.

O telefone móvel é sem dúvida um objecto que está a mudar a vida das pessoas, facilitando a sua vida mas também a condicionando. Daí que não seja de estranhar a relação de amor e ódio em simultâneo com o telemóvel.

 

quinta-feira, novembro 11, 2004

Libertar as Palavras

Observo-te em silêncio enquanto as palavras borbulham no meu pensamento sem conseguirem ficar ordenadas de forma a brotarem cá para fora. De vez em quando ensaio algumas frases mas logo a seguir recuo porque pressinto que não se vão articular como gostaria. E fico assim mudo e quieto colocando a minha atenção em todos os meus sentidos tentando captar alguma força que faça libertar as ideias.

Há dias assim! Dias em que me apetece escrever e parece que as palavras se atropelam tornando impossível registar aqui tudo o que me passa pela cabeça. Observo as palavras que aqui deixei anteriormente na tentativa de encontrar um fio condutor ou fico simplesmente a observar a folha branca e vazia procurando um ponto de partida. Às vezes resulta mas em muitas outras alturas é impossível conseguir transcrever algo que me agrade. É que escrever aqui tem de ser um prazer.

Continuo a observo-te em silêncio, incapaz de estruturar as ideias que gostava de partilhar contigo, por isso adio para quando conseguir organizar as palavras e os pensamentos. Sei que estarás aqui à minha espera, afinal de contas és o meu blog. Existes para que eu te possa fazer crescer de acordo com a minha disposição, a minha vontade e o meu prazer em ver em ti uma certa imagem daquilo que eu sou.

Basta que eu consiga libertar as palavras partilhando ideias e pensamentos para que esta forma de silêncio se desvaneça.

 

sexta-feira, novembro 05, 2004

Emoções

Somos bombardeados diariamente por emoções vindas do mundo com que nos relacionamos. Algumas são positivas enquanto outras são negativas, mas todas elas têm a sua importância de acordo com a força com que nos tocam. Podem ser sensações, imagens, cheiros, sons, intuições, condicionalismos, pressões, oportunidades, limitações ou assumir uma outra forma de interacção connosco, mas todas elas nos atingem de alguma forma.

Por outro lado, os nossos sonhos e desejos são forças internas que criamos dentro de nós. Do equilíbrio dessas forças todas, ou seja do cruzamento entre as emoções externas com os nossos sonhos, conseguimos gerar as nossas próprias emoções.

Felicidade, alegria, amor, delírio, tristeza, ódio, raiva, melancolia ou qualquer outra emoção que nos enche a alma é o resultado da combinação dessas forças externas e internas. São o fruto da forma como sentimos as emoções que nos chegam do mundo que nos rodeia e da força que conseguimos dar aos nossos próprios sonhos e desejos nesse momento.

Há momentos em que as coisas menos boas não nos afectam porque aquilo em que acreditamos é mais forte do que aquilo que nos tenta entristecer. Da mesma forma que os nossos sonhos e desejos só sobrevivem se forem alimentados do exterior. E há momentos em que ficamos tristes porque os nossos sonhos não são capazes de ultrapassar os medos que o mundo exterior nos provoca.

Somos “máquinas de emoções” tão simples e tão complicadas ao mesmo tempo!

 

segunda-feira, novembro 01, 2004

Kerry ou Bush?

Incrível como se fala tanto da eleição americana um todo por todo o mundo. Até Osama Bin Laden veio falar do assunto num vídeo transmitido na televisão!

Ontem estive a ver o Fahrenheit 9/11 de Michael Moore. É certo que já há muito tempo que eu não gosto de Bush mas depois de ver este filme fiquei ainda mais esclarecido sobre a mentira e hipocrisia que reina na família Bush. O filme revela um mundo maquiavélico desde a disputa eleitoral com Al Gore que nunca ficou bem esclarecida até às ligações perigosas com a Arábia Saudita e os Bin Laden passando por tantos erros que só revelam a incapacidade, arrogância e ignorância de Bush.

Será que os iraquianos estão hoje contentes com tudo o que aconteceu? O presidente Saddam Hussein foi afastado só que com ele desapareceram também as suas casas, a sua segurança por mais débil que fosse, as suas famílias e a sua pequena qualidade de vida. Basta reparar na quantidade de mortes que existiam no Iraque antes e depois da invasão para ter uma ideia do caos que hoje existe por lá.

Não sei o que Kerry pode ter de melhor face a Bush, mas na dúvida acho que se amanhã fosse chamado a votar ele poderia ter o meu voto. Acho que Kerry poderia ganhar apenas por aquilo que Bush faz de errado (ou aquilo que nem sequer faz) se a votação fosse num país europeu.
No entanto estamos a falar de uma votação nos Estados Unidos da América, onde os valores da sociedade são bem diferentes dos nossos. Como dizia ontem Júlio Machado Vaz na Antena 1 é um país onde se discutiu até à exaustão o caso de adultério do presidente Clinton que quase o destituiu do cargo mas onde as mentiras e ignorância de Bush não chegam para que isso possa ser sequer equacionado.

Se amanhã Bush ganhar vamos ter mais do mesmo nos próximos tempos mas se Kerry conseguir a vitória talvez exista uma expectativa que algumas coisas melhorem. Entre a falta de esperança e uma ténue esperança eu prefiro a segunda hipótese pois já estou a ficar farto de ver reféns a pedir auxilio na televisão, imagens de execuções e notícias de atentados diários no Iraque todos os dias.
Lembram-se de Sérgio Vieira de Mello? Esteve em Timor onde fez um excelente trabalho e a ele se deve a forma como aquele país finalmente recuperou a paz. Morreu no Iraque na sequência de uma invasão liderada por Bush que dizia que existiam armas de destruição em massa. As tais armas que afinal parece que tinham sido apenas inventadas para justificar uma intervenção bélica.

É por isto que em todo o mundo a eleição americana é acompanhada com tanto interesse.

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