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sábado, fevereiro 12, 2005

O Xadrez da Vida

“Quando era pequena, o pai ensinou-a a jogar xadrez. Havia uma jogada que a encantava, aquela a que os especialistas chamavam o roque: o jogador deslocava duas peças ao mesmo tempo: colocava a torre ao lado da casa do rei e faz passar o rei para o outro lado da torre. Esta manobra agradava-lhe imenso; o inimigo reúne todas as suas forças para atacar o rei e, de repente, o rei desaparece diante dos seus olhos: muda de casa. Toda a vida, Agnès sonhara com uma manobra assim, e sonhava cada vez mais com ela à medida que a sua fadiga aumentava”

Milan Kundera in “A imortalidade”

Quando eu descobri como deslocar as peças, na ilusão que estava a aprender a jogar xadrez, fiquei também fascinado pelo roque. O que me entusiasmou nele acho que foi o facto de ser um movimento diferente dos outros e que fugia ao vulgar e comum. Agora, ao ler Kundera, consigo perceber-lhe um outro significado: a vontade de desaparecer e mudar como se de um passe de mágica se tratasse.

A ideia é atraente: a capacidade de desaparecer do local (físico ou temporal) onde nos encontramos, enquanto conseguimos fugir repentinamente dos ataques que nos fazem. O movimento de roque na nossa vida seria muito bem-vindo quando nos sentimos a sufocar pelo meio que nos rodeia ou quando não nos agrada o ambiente que se gera em torno de nós. Isto para não falar daqueles momentos em que parece não haver saídas interessantes para prosseguir a nossa vida e talvez uma jogada dessas nos viesse abrir novas portas ou janelas por onde continuar.

De qualquer modo há que reconhecer que desaparecer ou mudar de rumo nas situações mais complicadas da vida também é possível, e se calhar mais do que imaginamos, mas convém não esquecer que este é um movimento de ruptura muitas vezes visto quase como ilícito. Curioso é que no xadrez faz parte das regras e qualquer jogador deve contar com ele para se defender ou para ver o oponente fugir da tentativa de o dominar.

Quem nunca experimentou na vida o desejo de mudança brusca?
Pode ter sido quando os nossos esforços para melhorar o mundo que nos envolve se tornam infrutíferos ou quando as apostas feitas se revelam erradas e em vão. Na realidade, somos capazes de fugir e experimentar momentos especiais, só que depois parece que tudo volta à estaca zero. Tal e qual um jogador amador de xadrez que movimenta as peças na ilusão que está a atacar quando de facto apenas se está a expor irremediavelmente. Parece que nos falta a capacidade de desferir um roque.

Regressando ao xadrez, o roque apenas pode ser efectuado entre o Rei e a Torre. É disso que nos esquecemos no nosso quotidiano: não basta fugir, há que ter as condições para o fazer de forma convicta. Temos de ter a confiança, a coragem e a determinação que o Rei representa, e ao mesmo tempo encontrar a Torre que nos pode dar a protecção e a solidez necessárias ao movimento.
Para piorar o cenário, no xadrez este movimento só é legal se o Rei e a Torre ainda não tiverem sido mexidos. Será que quanto mais pequenas fugas momentâneas fizermos, mais complicado se torna a mudança definitiva e ficamos bem mais expostos perante o nosso parceiro (e opositor) de jogo porque perdemos a capacidade de efectuar um roque? No xadrez sim...
 

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