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domingo, maio 29, 2005

Ainda Não

“Não, não é ainda a inquieta
luz de março
à proa de um sorriso,
nem a gloriosa ascenção do trigo,

a seda duma andorinha roçando
o ombro nu,
o pequeno e solitário rio adormecido
na garganta;

não, nem o cheiro acidulado e bom
do corpo, depois do amor,
pelas ruas a caminho do mar,
ou o despenhado silêncio

da pequena praça,
como um barco, o sorriso à proa;

não é só um olhar."

Eugénio de Andrade in “Branco no Branco”

Há coisas que apesar de “ainda” não existirem ou não terem acontecido, são desde já desejadas. É o sonho de poder vivê-las e a antecipação de senti-las, tal e qual hoje as conseguimos imaginar.

Podem ser apenas fantasias que se querem tornar realidade, mas que já têm uma vida própria dentro de quem as deseja. Independentemente das diferenças que a realidade terá face ao que hoje se antecipa, este é um “ainda” que evidencia acima de tudo uma enorme ambição.
E com sabor a um futuro que chegará um dia destes!
 

 

quinta-feira, maio 26, 2005

Outras Pontes

Ponte da Arrábida, Porto

Júlio Machado Vaz fala-nos assim das pontes:

“Uma "ponte" é um momento único, sabes? Dois dias de ócio triunfam, pelo cerco, sobre um de trabalho que se rende. Estás a ver o simbolismo? Dois somos nós também. Cerquemos o conflito que nos mantém apertadamente separados e talvez ele deponha as armas como sexta-feira próxima.”

As pontes são estruturas que fazem a ligação entre o que naturalmente está separado, tentando transmitir uma sensação de segurança e conforto. Ao mesmo tempo, permite observar de uma outra perspectiva tudo o que separa cada um dos lados.

Já por aqui falei de pontes, em especial das que estabelecemos na nossa vida. Relembro algumas palavras:

“Ao longo da vida vamos construímos pontes que nos ligam às pessoas que nos rodeiam e com as quais estabelecemos algum tipo de relação. Através dessas pontes também nós aprendemos imenso com as outras pessoas, não deixamos de ser nós próprios mas podemos incorporar experiências e saberes até aí ignorados.”

Seja uma travessia que une duas margens de um rio, uma forma de escapar a um dia solto de trabalho ou uma relação que se estabelece entre duas pessoas, em qualquer uma destas pontes é sempre possível observar e reflectir o que nos rodeia de uma forma diferente daquela que temos quando nos isolamos apenas de um dos lados.

As pontes podem ser um local ameno de descanso depois de um caminho sinuoso acabado de ser percorrido. No entanto, não garantem que do outro lado o caminho fique mais fácil. Aliás depende muito das expectativas que construímos, da preparação que temos, daquilo que queremos descobrir nesses outros caminhos e da vontade de sermos bem recebidos desse outro lado!
Mas, garantem que é possível observar o mundo de uma forma distinta fruto da ligação de componentes distintas que se cruzam sobre uma realidade que tanto separa como une as duas margens! A escolha não unicamente nossa, mas também depende de nós.
 

 

terça-feira, maio 24, 2005

Parabéns Bob

Bob Dylan

Bob Dylan faz hoje 64 anos de vida. Neste dia, uso as palavras dele para o recordar:

“May your heart always be joyful,
May your song always be sung,
May you stay forever young,
Forever young, forever young,
May you stay forever young.”

Esse é também o meu desejo: que ele nos possa continuar a oferecer o seu enorme talento (na minha opinião) por muito tempo. Assisti a três concertos dele aqui em Portugal e espero poder repetir a experiência mais vezes.

Parabéns Bob!
 

 

segunda-feira, maio 23, 2005

Outras Estações

O Paulo Querido presenteou-nos a semana passada com esta frase:

“A paixão é uma estação do amor, como o Verão é uma estação do ano.”

É realmente um excelente ponto de vista, mas ficam algumas dúvidas para reflexão e quem sabe discussão.

Sendo a paixão apenas uma das estações do amor, quais podem ser as outras estações?
A sedução parece-me um excelente candidato para anteceder a paixão e para lhe suceder talvez possamos falar de um afecto sereno e mais maduro ou de uma partilha de afectos tranquilos.
E será que o declínio do amor também pode ser uma estação? O desgaste ou o fim do enamoramento podem ser uma fase deste ciclo. Depois disso há a renovação: do amor, das relações e/ou das pessoas.

Significará isto que o amor se rege por ciclos? E no fim de um destes ciclos, estaremos preparados para começar um novo, com a renovação dos afectos?
Se calhar é mesmo assim, embora os ciclos não sejam obrigatoriamente iguais, porque as relações nunca são iguais entre si (até quando as pessoas são as mesmas e é apenas a relação que se renova).
Alguns destes ciclos talvez sejam breves, outros provavelmente podem durar anos e haverá ainda aqueles que são interrompidos a meio sem qualquer explicação lógica (afinal de contas estamos a falar de emoções).

Gosto da ideia de ciclos na vida, já aqui falei deles algumas vezes, mas nunca tinha visto a paixão como se de uma estação do ano se tratasse.
Será que é a Primavera ou o Verão? Talvez possa ser o Verão, se a Primavera for a sedução.
 

 

domingo, maio 22, 2005

A Soprano no Jazz

A soprano Barbara Hendricks tem feito incursões pelo desde 1994. Ontem à noite, esteve entre nós para encerrar o Matosinhos em Jazz acompanhada dos excelentes músicos do Magnus Lindgren Quartet.

Barbara Hendricks & Magnus Lindgren Quartet @ Matosinhos em Jazz 2005

O auditório da Exponor encheu para assistir a esta voz encantadora que faz a ponte entre a música erudita e o jazz, provando que a música é um campo enorme para a reinvenção dos sons.
O encore foi muito curto, o público merecia mais, apenas com uma versão de Summertime, que na minha opinião ficou muito aquém do que a canção permite.

Preferi a interpretação de Night and Day que foi uma surpresa muito agradável, provavelmente um dos melhores momentos da noite.
 

 

sábado, maio 21, 2005

Blues

O festival Matosinhos em Jazz deste ano contou ontem com uma noite dedicada aos . Primeiro com os portugueses Johnny Blues Band e depois com a soberba actuação do guitarrista norte-americano Lonnie Brooks com a sua banda.

Lonnie Brooks @ Matosinhos em Jazz 2005

Os blues estão na raiz de muita da música que ouvimos nos dias de hoje. É inegável a sua enorme influência em vários estilos musicais como o jazz, o rock, o country, o rhythm and blues e o pop convencional entre muitas outras. E quando temos a oportunidade de ver e ouvir ao vivo um interprete deste calibre percebemos facilmente a importância dos blues no mundo da música.

Energia, música, divertimento, sonoridade, espontaneidade, genialidade e simpatia foram apenas algumas das prendas que Lonnie trouxe consigo para nos oferecer. Um concerto para recordar por muito tempo.
 

 

quinta-feira, maio 19, 2005

Cumplicidade

Aqueles olhares cruzados que dialogam em silêncio são uma expressão da cumplicidade existente entre as pessoas. E quando assim acontece, as palavras tornam-se desnecessárias permitindo que em segredo sejam ditas tantas coisas.

Como é bom participar desses olhares, especialmente quando nos dizem coisas deliciosas!
 

 

terça-feira, maio 17, 2005

Rumo

Teremos um rumo verdadeiramente traçado para o desenrolar da nossa vida ou será que ela vai apenas contornando e saltando sobre os obstáculos que lhe aparecem pela frente desafiando constantemente o conceito de rumo?

Se calhar nenhuma destas duas opções é a correcta. Provavelmente será um meio termo em que vamos estipulando rumos que tentamos manter até que a nossa resistência nos obrigue a repensar a direcção que estamos a seguir. E com certeza que haverá momentos em que preferimos navegar ao sabor das ondas ou dos ventos, adiando o traçar de uma rota para outra altura.
Essa necessidade racional de fixar uma orientação bem definida é capaz de limitar a nossa viagem ao longo do tempo: quer seja por hesitarmos imenso em mudar de rumo ou por acharmos que a falta deste é sempre um facto negativo.

Às vezes, sabe bem navegar sem rota delineada à partida, explorando e descobrindo aquilo que não faz parte dos percursos considerados “normais” (seja lá o que esta palavra signifique).
E os rumos podem depois emergir naturalmente.
 

 

sexta-feira, maio 13, 2005

Momentos de Serenidade

Cavalos

Temos uma vida cada vez mais apressada em que a competição vai condicionando as nossas atitudes enquanto que a “produtividade” se tornou a palavra de ordem. Por isso, qualquer pequeno momento de calma e serenidade, é capaz de nos devolver alguma paz que vamos perdendo neste nosso quotidiano intenso que nos afasta constantemente da tranquilidade.

Esses momentos nem precisam de ser grandiosos. Às vezes basta uma música que nos embala a imaginação para outros mundos e outras vezes é simplesmente a harmonia de uma paisagem que nos regala a vista. E também pode ser o cheiro e o som da natureza que nos liberta desse som sintético do nosso mundo urbano.

Há momentos em que precisamos de uns breves minutos a sós com a Natureza para nos podermos reconciliar um pouco connosco próprios.
 

 

segunda-feira, maio 09, 2005

Sugestão de Fotografia

O Fotoben é um projecto, em forma de blog, que todos os dias nos apresenta uma nova fotografia. Foi uma bela surpresa encontrar um projecto com esta simplicidade e com registos fotográficos de excepcional qualidade.

Cheguei a ele através do Janela Para o Rio. Voltarei lá com todo o prazer para me deliciar com as brilhantes imagens do Benjamim no seu Fotoben.
 

 

domingo, maio 08, 2005

Hoje é Domingo

Praia entre o Porto e Matosinhos

Nos meus tempos de miúdo, as manhãs de Domingo eram frequentemente passadas junto da praia na entrada de Matosinhos. Acompanhava o meu pai, num ritual que passava pela compra do jornal, a viagem pela Avenida da Boavista ainda cheia de árvores verdejantes, o café (pingo para mim), conversa com os amigos dele que por vezes apareciam e a leitura do jornal. Por vezes o destino era diferente, dependia do tempo que fazia, mas o programa era em tudo semelhante.

Passados tantos anos, este é um local de passagem frequente, quase diária, e que foi entretanto completamente renovado. Agora, cada vez que volto a observar este mar, recordo essas manhãs cúmplices que me faziam saltar da cama bem cedo para o poder acompanhar com um enorme prazer.
 

 

sábado, maio 07, 2005

Do Pesadelo ao Sonho

Há acontecimentos difíceis de acreditar que realmente são verdade. Desejamos que tudo não passe de um sonho mau enquanto sentimos a urgência em acordar dele.

Para sobreviver da melhor forma possível a estes pesadelos reais, temos de conseguir aceitar a verdade tal e qual ela é. Há que saber respeitar aquilo que o destino (ou qualquer outra coisa em que possamos acreditar) escolheu para nós nestes momentos menos bons. Depois, teremos de encontrar de novo a serenidade e a calma que nos permita seguir em frente, renovados que ficamos com as lições que conseguimos retirar de tudo o que acabamos de viver.

A vida tem de continuar, porque apesar dos pesadelos vividos temos de manter a nossa capacidade de perseguir os nossos melhores sonhos.
 

 

domingo, maio 01, 2005

Clandestinidade no Feminino

(Respondendo ao desafio de escrever um texto erótico, tomando para nós um papel com o sexo que não o nosso)

Há muito que ele me tinha encantado com as suas palavras, que isto da net permite que a sedução se faça remotamente e por escrito. Os elogios dele foram talvez a pedra de toque, não imaginava ele o quanto eu precisava de os ouvir ao vivo e a cores.
O dia em que o conheci pessoalmente acabou por ser estranho e curioso, porque não foi o típico café marcado para depois do trabalho, mas sim um jantar com dezenas de pessoas, em que estávamos presentes. Eu sentia um nervoso miudinho a percorrer o meu corpo. Estava fascinada por aquele homem que fazia parte do meu quotidiano até então apenas virtual e não sabia como iria reagir à sua presença física, ao seu olhar e ao imaginar ouvir da boca dele as palavras lidas vezes a fio. Estranheza maior seria o facto de ambos estarmos acompanhados. Não sabia bem o que iria sentir ou como isso poderia condicionar o desenvolvimento desta nossa relação que se preparava para ultrapassar finalmente a barreira entre o virtual e o real.

Foi fácil reconhecê-lo e ele era tal e qual o imaginara pelas fotografias trocadas: sensual, inteligente, distinto e bonito. A companheira dele não me deixou indiferente, era uma mulher linda e sorridente, e senti a primeira sensação de ciúme enquanto me imaginei parte de um triângulo. Respirei fundo, não fazia sentido aquele sentimento, ele era apenas alguém que eu pouco conhecia. Olhei-o de novo, percebi-lhe a serenidade e a confiança que eu tinha concebido como parte da sua imagem. Os cabelos grisalhos davam-lhe um aspecto especial e a roupa casual assentava-lhe como uma luva. Mas o que me chamou mais a atenção foi sem dúvida o seu olhar, que se revelou cativante e mágico.

Quando me viu pela primeira vez, estávamos ambos sozinhos momentaneamente. Reconheceu-me e veio ter comigo. Esses primeiros 2 minutos foram intensos no olhar e no nervosismo, mas a empatia que se criou foi imediata; senti um arrepio percorrer-me o corpo. Logo de seguida chegou a acompanhante dele, percebi no seu olhar alguma desconfiança que ele prontamente ignorou. O meu companheiro também se aproximou e a conversa a quatro surgiu naturalmente, como se mais nada se passasse ali. No meio do jantar percebi que se tratava afinal de um quadrado e não um triângulo, aquele onde eu tinha aterrado e senti então o meu receio lutar contra a meu desejo.
O fim do jantar interrompeu os nossos olhares cruzados cheios de cumplicidade. Por alguma razão sonhei com ele naquela noite.

No dia seguinte recebi o seu e-mail onde me contava como tinha sido importante conhecer-me, como tinha ficado cativado comigo e a forma como o meu sorriso o tinha tocado. Não resistimos sequer uma semana, e fomos lanchar ao fim da tarde na praia frente ao mar. A atracção era mútua e ele tinha um carinho por mim como há muito eu desejava sentir vindo de alguém. Aos poucos fomos deixando que o desejo se fosse libertando das amarras. O primeiro beijo aconteceu no carro dele em frente do mar. Os nossos corpos pediam mais, queriam conhecer-se, queriam libertar-se das roupas e entregarem-se ao ritmo intenso da nossa paixão.

Poucos dias depois, surgiu a nossa primeira fuga ao trabalho para nos encontrarmos. Parecíamos dois adolescentes irresponsáveis! A escolha da roupa tinha sido criteriosa nessa manhã: aquela lingerie que há muito esperava um momento especial para ser estreada, um vestido leve e sensual e os meus sapatos preferidos. A chuva miudinha que tinha chegado naquele dia de Verão não me fez desistir da ideia do vestido, e quando caminhava em direcção a ele, foi bom sentir o contacto da chuva fria com o meu corpo que estava já em brasa.
A magia aconteceu naquele dia quando senti pela primeira vez o corpo dele entre o meu, as mãos dele que percorriam lentamente a minha pele, o peito dele colado aos meus seios, a sua boca que me beijava ferozmente e aquela língua malandra brincando por todo o meu corpo. O cheiro dele enlouquecia-me como nunca me tinha acontecido antes, e os meus lábios procuravam sentir o sabor do seu corpo. A voz dele no meu ouvido intercalava as palavras de amor com excitantes indecências, que me deixavam ainda mais louca por ele. A sua respiração ofegante misturada com os gemidos de prazer (os dele e os meus) arrepiavam-me toda. Ele era, e continua ser, mais do que aquilo que imaginei inicialmente: um homem perspicaz, inteligente, carinhoso, bem humorado, optimista e excelente na cama (ou em qualquer outro dos sítios mais ou menos normais onde fazemos amor).

Ele trouxe-me de volta a magia do amor; veio acordar-me de um sono em que o meu corpo se tinha deixado cair, mostrou-me como o sexo pode ser uma entrega deliciosa de dois corpos que se amam, deu-me a loucura da paixão, incutiu em mim a alegria de viver e a vontade de concretizar este nosso sonho. A clandestinidade do nosso amor seduz-me, mas quero mais, muito mais. Quero a revolução que tire este amor da ilegalidade e acabe com os (des)amores obsoletos que continuam a existir nos outros vértices do quadrado.
Com paciência, muito amor e muitos momentos clandestinos iremos sobreviver até ao dia da tão desejada revolução.
 

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