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domingo, maio 29, 2005

Ainda Não

“Não, não é ainda a inquieta
luz de março
à proa de um sorriso,
nem a gloriosa ascenção do trigo,

a seda duma andorinha roçando
o ombro nu,
o pequeno e solitário rio adormecido
na garganta;

não, nem o cheiro acidulado e bom
do corpo, depois do amor,
pelas ruas a caminho do mar,
ou o despenhado silêncio

da pequena praça,
como um barco, o sorriso à proa;

não é só um olhar."

Eugénio de Andrade in “Branco no Branco”

Há coisas que apesar de “ainda” não existirem ou não terem acontecido, são desde já desejadas. É o sonho de poder vivê-las e a antecipação de senti-las, tal e qual hoje as conseguimos imaginar.

Podem ser apenas fantasias que se querem tornar realidade, mas que já têm uma vida própria dentro de quem as deseja. Independentemente das diferenças que a realidade terá face ao que hoje se antecipa, este é um “ainda” que evidencia acima de tudo uma enorme ambição.
E com sabor a um futuro que chegará um dia destes!
 

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