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domingo, maio 01, 2005

Clandestinidade no Feminino

(Respondendo ao desafio de escrever um texto erótico, tomando para nós um papel com o sexo que não o nosso)

Há muito que ele me tinha encantado com as suas palavras, que isto da net permite que a sedução se faça remotamente e por escrito. Os elogios dele foram talvez a pedra de toque, não imaginava ele o quanto eu precisava de os ouvir ao vivo e a cores.
O dia em que o conheci pessoalmente acabou por ser estranho e curioso, porque não foi o típico café marcado para depois do trabalho, mas sim um jantar com dezenas de pessoas, em que estávamos presentes. Eu sentia um nervoso miudinho a percorrer o meu corpo. Estava fascinada por aquele homem que fazia parte do meu quotidiano até então apenas virtual e não sabia como iria reagir à sua presença física, ao seu olhar e ao imaginar ouvir da boca dele as palavras lidas vezes a fio. Estranheza maior seria o facto de ambos estarmos acompanhados. Não sabia bem o que iria sentir ou como isso poderia condicionar o desenvolvimento desta nossa relação que se preparava para ultrapassar finalmente a barreira entre o virtual e o real.

Foi fácil reconhecê-lo e ele era tal e qual o imaginara pelas fotografias trocadas: sensual, inteligente, distinto e bonito. A companheira dele não me deixou indiferente, era uma mulher linda e sorridente, e senti a primeira sensação de ciúme enquanto me imaginei parte de um triângulo. Respirei fundo, não fazia sentido aquele sentimento, ele era apenas alguém que eu pouco conhecia. Olhei-o de novo, percebi-lhe a serenidade e a confiança que eu tinha concebido como parte da sua imagem. Os cabelos grisalhos davam-lhe um aspecto especial e a roupa casual assentava-lhe como uma luva. Mas o que me chamou mais a atenção foi sem dúvida o seu olhar, que se revelou cativante e mágico.

Quando me viu pela primeira vez, estávamos ambos sozinhos momentaneamente. Reconheceu-me e veio ter comigo. Esses primeiros 2 minutos foram intensos no olhar e no nervosismo, mas a empatia que se criou foi imediata; senti um arrepio percorrer-me o corpo. Logo de seguida chegou a acompanhante dele, percebi no seu olhar alguma desconfiança que ele prontamente ignorou. O meu companheiro também se aproximou e a conversa a quatro surgiu naturalmente, como se mais nada se passasse ali. No meio do jantar percebi que se tratava afinal de um quadrado e não um triângulo, aquele onde eu tinha aterrado e senti então o meu receio lutar contra a meu desejo.
O fim do jantar interrompeu os nossos olhares cruzados cheios de cumplicidade. Por alguma razão sonhei com ele naquela noite.

No dia seguinte recebi o seu e-mail onde me contava como tinha sido importante conhecer-me, como tinha ficado cativado comigo e a forma como o meu sorriso o tinha tocado. Não resistimos sequer uma semana, e fomos lanchar ao fim da tarde na praia frente ao mar. A atracção era mútua e ele tinha um carinho por mim como há muito eu desejava sentir vindo de alguém. Aos poucos fomos deixando que o desejo se fosse libertando das amarras. O primeiro beijo aconteceu no carro dele em frente do mar. Os nossos corpos pediam mais, queriam conhecer-se, queriam libertar-se das roupas e entregarem-se ao ritmo intenso da nossa paixão.

Poucos dias depois, surgiu a nossa primeira fuga ao trabalho para nos encontrarmos. Parecíamos dois adolescentes irresponsáveis! A escolha da roupa tinha sido criteriosa nessa manhã: aquela lingerie que há muito esperava um momento especial para ser estreada, um vestido leve e sensual e os meus sapatos preferidos. A chuva miudinha que tinha chegado naquele dia de Verão não me fez desistir da ideia do vestido, e quando caminhava em direcção a ele, foi bom sentir o contacto da chuva fria com o meu corpo que estava já em brasa.
A magia aconteceu naquele dia quando senti pela primeira vez o corpo dele entre o meu, as mãos dele que percorriam lentamente a minha pele, o peito dele colado aos meus seios, a sua boca que me beijava ferozmente e aquela língua malandra brincando por todo o meu corpo. O cheiro dele enlouquecia-me como nunca me tinha acontecido antes, e os meus lábios procuravam sentir o sabor do seu corpo. A voz dele no meu ouvido intercalava as palavras de amor com excitantes indecências, que me deixavam ainda mais louca por ele. A sua respiração ofegante misturada com os gemidos de prazer (os dele e os meus) arrepiavam-me toda. Ele era, e continua ser, mais do que aquilo que imaginei inicialmente: um homem perspicaz, inteligente, carinhoso, bem humorado, optimista e excelente na cama (ou em qualquer outro dos sítios mais ou menos normais onde fazemos amor).

Ele trouxe-me de volta a magia do amor; veio acordar-me de um sono em que o meu corpo se tinha deixado cair, mostrou-me como o sexo pode ser uma entrega deliciosa de dois corpos que se amam, deu-me a loucura da paixão, incutiu em mim a alegria de viver e a vontade de concretizar este nosso sonho. A clandestinidade do nosso amor seduz-me, mas quero mais, muito mais. Quero a revolução que tire este amor da ilegalidade e acabe com os (des)amores obsoletos que continuam a existir nos outros vértices do quadrado.
Com paciência, muito amor e muitos momentos clandestinos iremos sobreviver até ao dia da tão desejada revolução.
 

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